Comuna de Paris: 150 anos de uma experiência de governo dos trabalhadores

Ideais ainda mobilizam a luta da classe trabalhadora no mundo. Entidades sindicais mantêm o legado de organização e resistência.

 

No último dia 18 de março, a classe trabalhadora mundial celebrou os 150 anos da Comuna de Paris, considerada a primeira experiência de governo controlada por trabalhadores e membros de classes populares da França e de outros países, que ocorreu entre 18 de março e 28 de maio de 1871.

Apesar do curto período, a Comuna de Paris influenciou outros processos revolucionários posteriores, como a Revolução Russa de 1917, a Revolução Alemã de 1918-1919, a Guerra Civil Espanhola de 1936-1939, o Maio de 1968 na França e a Revolução Portuguesa de 1974-1975.

A Comuna de Paris ocorreu no momento de tensões políticas e insatisfações populares após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). A cidade estava cercada pelos prussianos e o governo conservador criado após a guerra tentava negociar com os invasores. A resistência veio do Comitê Central da Guarda Nacional, formado por soldados do exército insatisfeitos, que se solidarizaram com os parisienses, em uma grande mobilização popular.

Destacou-se a participação das mulheres dos bairros operários de Paris, cumprindo papel decisivo de apoio à Guarda Nacional e nos chamados clubes revolucionários — associações políticas cujas origens remetiam à Revolução Francesa de 1789.

Desses clubes foi formado o Comitê Central Republicano de Defesa Nacional dos Vinte Distritos de Paris, que serviu de experiência para a formação da Comuna e também para a mobilização de defesa da cidade contra os prussianos.

Outra instituição de apoio à Comuna foi a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) ou I Internacional. Criada em 1864, a AIT congregava organizações de trabalhadores de vários países e tinha em Paris uma de suas principais forças.

Sob o governo da Comuna de Paris, foram convocadas eleições para escolha de 80 delegados, entre eles 25 operários, 12 artesãos, além de intelectuais, especialistas e alguns comerciantes representantes dos distritos da capital francesa. Os delegados eram membros da AIT, blanquistas, jacobinos, jornalistas radicais e outras correntes políticas.

Avanços políticos e sociais

A inovação da Comuna de Paris, e que serviria de experiência para as revoluções posteriores, foi a determinação de que os delegados não poderiam receber salário maior que o de um operário e que seus mandatos poderiam ser revogados, caso demostrassem incapacidade no cumprimento de suas tarefas.

Com a Comuna, foi adotada em Paris a igualdade civil de homens e mulheres (apesar destas não poderem votar), supressão do trabalho noturno, supressão do exército permanente para a formação de milícias cidadãs, separação entre Estado e Igreja, ensino laico, gratuito e politécnico; a possibilidade de eleição dos estrangeiros, limitações ao trabalho feminino e infantil, criação da pensão para viúvas e crianças, fim de multas sobre salários, entrega das fábricas abandonadas aos trabalhadores, entre outros.

Direitos trabalhistas que ainda hoje mobilizam a luta de sindicatos no mundo. 

Apesar dessas realizações, iniciou-se uma guerra civil em oposição à ação dos comunardos (como eram conhecidos os membros da Comuna) com bombardeamentos a Paris pelos exércitos franceses e prussianos. Os comunardos sofreram sérias derrotas, especialmente na entre 22 e 28 de maio de 1871, denominada de Semana Sangrenta, em que a resistência popular enfrentou a força bélica. Mais de 20 mil comunardos foram mortos, milhares foram deportados e outros 15 mil foram presos.

A primeira experiência de governo dos trabalhadores da história ficou conhecida também como “assalto aos céus”, em virtude dos objetivos dos objetivos: criar uma nova forma de organização da sociedade.

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