Professora vítima da cultura do ódio e perseguição nas escolas

Professora vítima da cultura do ódio e perseguição nas escolas

O Sindiquímica manifesta solidariedade à professora da escola Liceu Jardim, Juliana Lopes, vítima da cultura do ódio e de perseguição aos docentes depois da eleição de Bolsonaro. A professora foi demitida por pressão dos pais de alunos que ameaçavam processá-la por defender posição contrária ao racismo, homofobia. Veja a resposta de Juliana publicada no seu  facebook para se defender das acusações dos pais.  Resposta, cordialmente respeitosa, ao Liceu Jardim, à sua carta aberta à comunidade publicada em sua página do Facebook: Nestes meses de eleições, os alunos do Liceu Jardim, da cidade de Santo André, a 3ª escola do estado de São Paulo e a 16ª no Brasil no ranking do ENEM, ficaram muito inflamados e sedentos de informações e posicionamento dos professores

Por várias vezes quiseram que eu abrisse meu voto, mas eu sempre me esquivava, até que sinalizei em quem não votaria em hipótese alguma, Bolsonaro, obviamente, uma vez que seu projeto de país era excludente e, como ele mesmo diz, para as maiorias.

Desta forma, os fiz entender que não se tratava de um posicionamento à direita ou à esquerda, mas sim algo moral que me impedia de compactuar com alguém que quer exterminar indígenas, negros, LGBTs e opositores em geral.

Muito bem. Devido ao meu bom relacionamento com eles e também minha credibilidade, estes mesmos alunos começaram a questionar a posição conservadora de seus pais que, em sua maioria, votava em Bolsonaro. Isso causou mal estar em suas casas, uma vez que, ao que parece, os filhos já não tinham mais como referência seus pais, mas sim seus professores – não é pra menos, eles passam 12 horas por dia na escola quase todos os dias.

O fato é que este mal estar se transformou em discussões e brigas e que, segundo alguns pais (pelo que me foi passado pela direção da escola), era obra de doutrinação de professores comunistas/petistas da escola. Assim, se organizaram de modo a pressionar a direção querendo a cabeça de alguns professores, caso contrário sairiam da escola, entrariam com processo por aliciamento de menores e coisas assim.

Então, nas últimas duas semanas, alguns professores (e eu fui uma delas) foram chamados às falas para que não se manifestassem em redes sociais, sobretudo no Facebook, pois estes pais estavam nos stalkeando e tiravam de lá sua base argumentativa, imersa num ambiente paranóico da finada Guerra Fria, de que éramos doutrinadores comunistas.

Nesse meio tempo, vieram as eleições, o resultado se consolidou, mas a pressão ainda persistia, tanto que na segunda-feira, dia 29/10, o recado da direção era de que estava terminantemente proibido falar de política naquele dia, inclusive com monitoração das salas.

Eu, que vinha de uma carga de estresse por N coisas, tive uma crise de choro e não suportei ficar na escola aquele dia, avisei a direção e fui embora. Desculpei-me depois por minha atitude, pedi para que meu dia fosse descontado ou algo assim.

Contudo, no dia seguinte, fui chamada para uma reunião com a alta cúpula da escola em que me comunicaram o meu desligamento devido a minha postura no dia anterior e também porque alguns pais, com muito poder econômico e político, me ameaçavam de processo e para minha própria proteção me demitiriam.

Foi uma conversa longa na qual expus que compreendia que a escola tem de pagar suas contas, mas deixei claro que estava sendo injustiçada e tinha minha consciência tranquila, uma vez que minhas aulas sempre foram abertas ao diálogo e ao debate e que gostaria mesmo que tivessem sido gravadas e expostas a todos.

Foi um desligamento cordial, porém injusto, me senti desprotegida pela escola que hoje figura entre as melhores do país, mas que não suportou a pressão de pais endinheirados e com fortíssimo poder político dentro do ABC paulista (e fora dele também) e que, inclusive, ouvi nesta mesma reunião, pedem abertamente à direção do Liceu Jardim a infundada ideia da Escola Sem Partido – fruto do delírio de pessoas sem nenhuma formação acadêmica/professoral e que nunca puseram os pés numa sala de aula, precisando que 30 pessoas diferentes se atentem para o que você fala.

 

Nestes 3 anos que lá fiquei, conseguimos fazer um trabalho de humanização da escola, que era chamada pelos próprios alunos de ‘presídio’. Fizemos um coletivo feminista, promovemos saídas culturais, criamos um espaço de debate (com convidados de fora) chamado ‘Diálogos do Jardim’, no qual era possível debater desde segurança pública a racismo, com todos os alunos do Ensino Médio reunidos, aulas de cinema e análise fílmica, foi lindo!.

Todavia, isso tudo está ameaçado, pois alguns pais veem isso como doutrinação. Segundo a própria direção e coordenação do Liceu Jardim, visitam a escola e se recusam a matricular o filho neste “ambiente”; alguns chegam ao absurdo de questionarem por que a escola ainda valoriza a entrada na universidade pública, pois é lugar de comunista/guerrilheiro.

Vivemos tempos difíceis. Um projeto autoritário de governo, que sequer tomou posse, compartilhado por boa parte da sociedade civil, já sai às ruas com grito de guerra contra negros e LGBTs, já se intimida professores com filmagens de aulas a serem denunciadas. Talvez meu choro no dia seguinte das eleições não tenha sido exagero.

No mais, não tenho rancores ou ressentimento em relação ao Liceu Jardim – foram 3 anos de muito aprendizado e experiências novas. Consegui realizar um trabalho junto aos alunos de desenvolvimento de seu pensamento crítico que, de tão inteligentes, me recuso a acreditar que são estúpidos ao ponto de serem passivamente doutrinados (porque doutrinação é uma atitude passiva!).

Foi-lhes oferecido cabedal intelectual de grandes nomes do pensamento ocidental – eles têm condições de debater com propriedade. Eu os conheço pelo nome! A narrativa da doutrinação é uma falácia! O que me toma agora, depois desta carta oficial, sendo eu colocada novamente no banco dos réus, é um profundo sentimento de decepção e desapontamento.

Estou decepcionada e rasgada por dentro, pois quando mais precisei de apoio, a despeito de todos os elogios que sempre proferiram a mim, à minha formação e às minhas aulas, fui covarde e injustamente dispensada, única e exclusivamente porque não tenho o poder econômico e político de algumas pessoas que são prisioneiras de uma escura caverna de Platão e, consequentemente, com uma visão tacanha de mundo.

Aos meus alunos, aos meus queridos alunos, deixo o que sempre lhes dei todas as vezes em que entrei em sala de aula: meu respeito.

Publicado no Facebook da professora Juliana Lopes

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