Daniel Viglietti, o trovador que iluminou mil batalhas

Daniel Viglietti, o trovador que iluminou mil batalhas

Com tudo que ainda falta para "desalambrar" [romper], com a grande necessidade que temos de achar os "Trópicos" que nos ajudem a alcançar as nossas alegrias e as nossas tristezas, justamente agora, Daniel Viglietti decidiu partir e nos deixa um tanto órfãos das suas grandiosas canções. Herdeiro das melhores tradições libertárias do Uruguai, começou a entoar as suas "Canciones para el hombre nuevo" [Canções para o homem novo] exatamente um ano depois que o guerrilheiro heróico Che Guevara foi assassinado na Bolívia, enquanto nas ruas de Montevidéu as balas da polícia interrompiam a vida de um estudante cujo nome se tornou uma bandeira: Liber Arce [Líber Walter Arce Risotto, primeiro estudante assassinado pelas forças policiais no país, durante o governo de Jorge Pacheco Areco]

Assim, antecipando o que logo seria o "Pachecato" [termo utilizado para definir o regime de Pacheco] e a figura ridícula de Bordaberry, que dariam início à cruel ditadura no país, Daniel esmiuçava poemas, compartilhados como mensagens urgentes de boca em boca, iluminando com estrelas tupamaras o céu oriental.

Isso acontecia, sem dúvidas, porque "la senda está trazada" [o caminho está traçado] porque "la marcó Che" [Che o marcou], já que abaixo e à esquerda, naqueles anos de chumbo, "el chueco Maciel" se defendia a tiros no Cantegril [periferia] para demonstrar que eram tempos de não mais oferecer a outra face.

Daniel foi acompanhado pela sua poética forma de enxergar a vida que outros colocavam em marcha para aprimorar o caminho. Nas ruas, se levantava a épica de uma luta desigual contra o poder e isso era mais que contagiante. Raúl Sendic Antonaccio era referência no modo de fazer política e o jovem Viglietti traduzia seus ensinamentos para que se adequassem às cordas do seu violão. Assim, entoando essa "llamarada" [fogaréu], "bajo un sol trafoguero" [sob um sol que não se apaga], homenageava o estudante de Agronomia Jorge Salerno, assassinado na Tomada de Pando [quando o Movimento de Libertação Nacional dos Tupamaros tomou a cidade de Pando em 1969] junto com Jorge Zabalza e Alfredo Cultelli. Três combatentes valentes decididos a fazer o possível para que o mundo mudasse.

A noite chegou, e enquanto os tupamaros eram presos nos calabouços, aqueles que conseguiram sobreviver iniciavam o caminho para o exílio. Assim também partia Daniel, sem guardar as bandeiras nem se curvar às adversidades. Nesses dias difíceis, seu internacionalismo se engrandeceu, passou a cantar os feitos históricos da Pátria Grande.

Desse tempo, veio o grito estremecedor de "Por todo Chile" e tempos depois, "El sombrero de Sandino" [o chapéu de Sandino], em homenagem à Nicarágua sandinista. E a lista cresceu, já que o seu cancioneiro passou a incluir a Cuba socialista, a Colômbia guerrilheira, o México zapatista, a Venezuela Bolivariana e todos aqueles outros cantos do planeta onde os povos se levantavam contra os poderosos.

Há poucos dias, pudemos vê-lo brilhar como nos seus anos de juventude, em Vallegrande, na Bolívia, relembrando os 50 anos da morte de Che. Compartilhava o mesmo espaço de dignidade e compromisso que Evo [Morales] e os guerrilheiros Pombo e Urbano [que estiveram no combate com Che na Bolívia]. Diante de um público entusiasmado e de bandeiras tremulantes, milhares de camponeses e camponesas o acompanhavam em coro, e assim que o escutaram entoar os primeiros versos, reconheceram que se tratava de "la tierra es tuya, es nuestra y de aquel" [a terra é tua, nossa, daquele, versos de A desalambrar].

Você partiu como chegou, Daniel, com o violão como escudo e a coragem como cantora. Em breve, entregará seus versos à Violeta [Parra], a [Alfredo] Zitarrosa e El Sabalero [José Carbajal], enquanto [Mario] Benedetti lerá poemas que anunciam as vitórias futuras.

Fonte: Brasil de Fato

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